Para ler, ouvir e sentir...
O bom de uma dor excruciante é que deixas de te importar. Dias banais e horas aflitivas que parecem infindáveis e abraçam as más notícias rotineiras que nos consomem. Hoje é mais um dia…Acordo a teu lado, massacrado pelo sofá bafiento e ressonante. Percorro o corredor lívido e lastimoso para fazer, mais uma vez, da máquina do café o espelho da manhã. Ando a brincar às escondidas com a esperança. Esta parece somente salvaguardada para quem tiver a destreza de a encontrar. Já somos poucos.
Mas, as rotinas nunca farão de ti menos bonita. A cor contrastante das rosáceas das tuas bochechas irão sempre encher o quarto de vida em combate do branco puro, eterno e morto do hospital.
Dizem que só somos verdadeiramente livres no nosso pensamento. Um dia prometeste-me que irias ser livre e hoje conto-te o dia em que foste capaz de o fazer. A maneira como chorei o meu coração fora contigo nos meus braços. Como tirei a camisola , rasgando-a em fracos pedaços de tecido e os atei aos teus pulsos escarlate para te estancar o sangue. Como tentei que vomitasses os comprimidos e o álcool enquanto gritos cortavam o ar do que era nosso. Depois eles chegaram e arrancaram-te dos meus braços. Homens brancos manchados pelo teu sangue.
Pergunto-me que liberdade dissimulada é essa de viver presa na tua própria cabeça, que deixa que o silêncio seja a única coisa a que tenho direito. Não me chega...Porque és tu, sempre foste tu, desde a génesis do universo ao buraco fosco e terminal ao qual indiscutivelmente todos estamos destinados.
Destino..Amargo Destino .
Ainda me importo. Enquanto existires a dor nunca será suficiente para desistir. E, enquanto me importar, sei que estou a cumprir o meu papel: fazer com que amar-te seja a coisa mais importante da minha vida.
Coragem minha brava.
Matilde Moura.
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