domingo, 28 de abril de 2013

Capitão

   E lá estava eu. No portão da escola a ser nada e a ser ninguém quando fui levada de alma calada pelo Capitão. E caminhei, sem questionar, e, a cada passo que dava, rejuvenescia. 
   Ele enfeitava o caminho a meu gosto, como se cair no familiar funcionasse como compensação. Estava tão reconhecível... os traços do seu rosto estavam milimetricamente bem posicionados e o seu olhar voltara a ser genuíno. Sei que o era porque olhou para mim como se eu merecesse o título de senhora do universo mesmo usando as minhas All star gastas, as minhas sobrancelhas desalinhadas e como se todo o meu tamanho tivesse origem no meu coração e não na minha altura.
   Depois lembrei-me de uma das coisas mais importantes da minha vida. As luzes apagaram-se e o tempo caiu no reverso. E lá estava eu. No portão da escola a ser nada e a ser ninguém.   
   Desta vez o Capitão não me viera buscar. Viera tentar ser dono do meu destino. Não deixei, e cuspi-lhe na cara tudo o que a garganta oprimira. Cuspi o fel do desespero de desistir e da pressão dos anos a rasgarem-me a pele. 
   Olhou para mim e compreendeu. Olhou para mim como se nunca fosse deixar de me ir buscar. Olhou para mim e eu acordei.

Matilde Alves