domingo, 1 de dezembro de 2013

Capitão III

"You keep me safe. I will keep you wild"

   Sei que o Ponto Final odeia a Reticências. Talvez pela maneira obnubilada e abnóxia de que é vítima do futuro que, dissimulado , se adorna diplomaticamente de expectativas petulantes que mais fedem a verdades enegrecidas...
   Tentei abstrair-me da demência causada pela cabeça onerosa que, lugubremente, se deixou levar pela abrupta e pérfida anestesia , fazendo-me dialogar em silvos com os ouvidos à minutos...ou horas...ou dias...
   Estava pasmada pela minha capacidade de condescendência ao meu corpo hirto que se mantinha insensível ao soalho gélido do quarto como consequência dos ansiolíticos, que me nutriam de devaneios, estrelas e luzes que palpitavam em sintonia com o motor enclausurado pela caixa torácica.
   Levantei-me num esgar e arrastei-me até à cómoda onde me olhei ao espelho e vi o teu reflexo. Efémera miragem de um vulto cheio de lacunas oriundas dos meus caprichos danosos, que se pavoneavam de irracionalidade. Fraca, desmanchei-me em lágrimas e gritos pela nossa maneira funesta de atingir a simultaneidade. Somos exclusivos às necessidades um do outro. Meros derrotados pela crise paradoxal do meio termo.
   (Odeio-te por me amares tanto. Odeio-te por me fazeres amar-te tanto...)
   Num ato impulsivo , esmurrei-me com afinco contra as paredes, à espera que saísses da gaiola num espectáculo de gestos decompostos, onde lentamente, me comecei a dissipar na queda de sons e espectros que se instalava fazendo o mar te erguer no palco do ( meu ) mundo.
   E, entre delírios, matei o Capitão...   

Matilde Alves

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Capitão II


Para ouvir enquanto se lê...

   Lentamente, no escuro, o silêncio ensurdecedor foi dando lugar às memórias que, embora fragmentadas, iam embalando o conforto utópico.
   Já começava a delirar... a pressão sufocava-me e os pulmões, em espasmos e engasgues, tentavam puxar o resto ínfimo de oxigénio à espera que o arrependimento não me deixasse explodir com a vida. E, prestes a ceder ao meu fim, um soco no peito fez-me vir ao de cima dando uma inspiração prodigiosa, nada digna de ser ouvida. Rasgou o ar impertinente com o seu carácter gélido, carregado de dor de um âmago metafóricamente morto.
   E, desejei a cegueira quando a consciência se fez lúcida e me deu o impacto do contraste da minha pele excessivamente branca com a àgua tépida tingida de líquido escarlate que escorria dos meus pulsos.
   Encostei-me na banheira, fracassada pelo sucedido. Porque no fundo eu sabia. Sempre soube.
   - Não te vou deixar ir - disse-me.
  - Não percebes? Eu não preciso de ser salva. Vou magoar-te. Vou magoar-te tanto que vais desejar nunca ter existido.
   - Mas querida...eu não existo. Sou apenas um reflexo de alma. Sou tudo o que há de virtuoso em ti.
   Deu-me um beijo na testa e eu inspirei toda a sua vida, reconfortada ao som melódico do pulsar daquele coração familiar que há muito que batia por dois.
   Filtraste os meus horrores e fechei os olhos para sentir intensamente na minha pele molhada a lufada de ar frio que se fazia sentir naquele Dezembro. Mas...que dimensão pode assumir o frio quando se tem uma alma fogosa?
   Abri os olhos. Capitão? Vazio. Puro e simples vazio.

Matilde Alves.

domingo, 28 de abril de 2013

Capitão

   E lá estava eu. No portão da escola a ser nada e a ser ninguém quando fui levada de alma calada pelo Capitão. E caminhei, sem questionar, e, a cada passo que dava, rejuvenescia. 
   Ele enfeitava o caminho a meu gosto, como se cair no familiar funcionasse como compensação. Estava tão reconhecível... os traços do seu rosto estavam milimetricamente bem posicionados e o seu olhar voltara a ser genuíno. Sei que o era porque olhou para mim como se eu merecesse o título de senhora do universo mesmo usando as minhas All star gastas, as minhas sobrancelhas desalinhadas e como se todo o meu tamanho tivesse origem no meu coração e não na minha altura.
   Depois lembrei-me de uma das coisas mais importantes da minha vida. As luzes apagaram-se e o tempo caiu no reverso. E lá estava eu. No portão da escola a ser nada e a ser ninguém.   
   Desta vez o Capitão não me viera buscar. Viera tentar ser dono do meu destino. Não deixei, e cuspi-lhe na cara tudo o que a garganta oprimira. Cuspi o fel do desespero de desistir e da pressão dos anos a rasgarem-me a pele. 
   Olhou para mim e compreendeu. Olhou para mim como se nunca fosse deixar de me ir buscar. Olhou para mim e eu acordei.

Matilde Alves

 

terça-feira, 12 de março de 2013

Péssimo exemplo de esperança

    Já fazia algum tempo desde a última vez que levantei estrondosamente o som do rádio para abafar o quão alto estavam os meus pensamentos mas, mais uma vez, não passou de uma tentativa falhada.
    E de olhos postos no nada, pensava. Pensava o quanto a minha alma é degradante por continuar inata ao cerne da questão.
    E peguei numa caneta para te escrever a última carta e, apesar desta não transcrever para o papel a minha revolta, pode criar um final diferente. Suportável.
    Tudo à minha volta está cheio de coisas vazias, e se o que tende a predominar são os meus fracassos, desafio-te a venderes a alma a quem te merece e a abandonares as questões sobre o mundo abstracto que tanto são alvo das tuas lamúrias.
    Os braços da liberdade são difíceis de alcançar e dada a angústia que é sentir a pulsação ecoar por todos os cantos do quarto dançando com o silêncio, suplico pelas tuas asas. Porque anjos como tu...anjos como tu " dão corda ao relógio do ( meu ) mundo ".
    Aceito o destino mudo que me deste e enterro no peito as verdades envoltas em breves momentos ocultos de pouca lucidez. Abraço o ódio com que carregas todo o teu amor porque o mundo foi feito para quem passa no teste da vida mas, e como não podia deixar de ser no nosso jeito contraditório, somos péssimos exemplos de esperança.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Sete e Vinte e Um

    E de todos os jardins escolhi aquele, porque era o nosso.
    E arrastava o corpo gasto pelos dias e pelas horas de desespero que é inundar-me dos teus pecados. Mais uma vez fora enganada pela inocência, o teu correcto é somente dor disfarçada.
    Tudo está igual...os pássaros, a relva, os bancos, a inquilina chata e o nosso nome. O nosso nome, estático, cravado no tronco da árvore. Tudo está igual , repito para mim mesma , na tentativa de matar o vazio daquele lugar.
    O coração desilude-me. Era suposto bombear todo o meu ser e não destruir a minha essência.
    O vento leva o que resta da tua presença, leva o odor dos teus vícios e do teu perfume barato. Só tenho pena de não ter rezado o suficiente para que te tivesse levado o orgulho. Agora pouco resta...talvez reste um jardim.
    Entrego-me à dor, não me chega a tua lápide nem as minhas rosas. 
    Chega então o suor, o sangue e as lágrimas...perco-me na imensidão que é o universo. A dor pára. Que fiz eu?

Matilde Alves