domingo, 1 de dezembro de 2013

Capitão III

"You keep me safe. I will keep you wild"

   Sei que o Ponto Final odeia a Reticências. Talvez pela maneira obnubilada e abnóxia de que é vítima do futuro que, dissimulado , se adorna diplomaticamente de expectativas petulantes que mais fedem a verdades enegrecidas...
   Tentei abstrair-me da demência causada pela cabeça onerosa que, lugubremente, se deixou levar pela abrupta e pérfida anestesia , fazendo-me dialogar em silvos com os ouvidos à minutos...ou horas...ou dias...
   Estava pasmada pela minha capacidade de condescendência ao meu corpo hirto que se mantinha insensível ao soalho gélido do quarto como consequência dos ansiolíticos, que me nutriam de devaneios, estrelas e luzes que palpitavam em sintonia com o motor enclausurado pela caixa torácica.
   Levantei-me num esgar e arrastei-me até à cómoda onde me olhei ao espelho e vi o teu reflexo. Efémera miragem de um vulto cheio de lacunas oriundas dos meus caprichos danosos, que se pavoneavam de irracionalidade. Fraca, desmanchei-me em lágrimas e gritos pela nossa maneira funesta de atingir a simultaneidade. Somos exclusivos às necessidades um do outro. Meros derrotados pela crise paradoxal do meio termo.
   (Odeio-te por me amares tanto. Odeio-te por me fazeres amar-te tanto...)
   Num ato impulsivo , esmurrei-me com afinco contra as paredes, à espera que saísses da gaiola num espectáculo de gestos decompostos, onde lentamente, me comecei a dissipar na queda de sons e espectros que se instalava fazendo o mar te erguer no palco do ( meu ) mundo.
   E, entre delírios, matei o Capitão...   

Matilde Alves