segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

'Os Gatos não têm vertigens'

   Tudo em ti é vertiginoso. A memória soberana do teu ser parece persistir a mesma. Lembro-me de ti , quando acordava no suor dos nossos lençóis e estavas à janela. Fumavas o habitual cigarro matinal absorvendo os raios de sol que incidiam na tua pele reluzente, mostrando sem pudor às vizinhas indiscretas a tua imaculada pele nua de seios perfeitos e ancas salientes.
   Apagavas o cigarro, vestias as calças e penteiavas desajeitadamente o cabelo desgrenhado enquanto passavas o batom pelos lábios. E assim, levando contigo o sol no bolso, saías porta fora sem aviso prévio de retorno, permanecendo eu ali, no vazio daquele lugar, acompanhada das tuas beatas escarlate , à espera que voltasses numa procura insensata de algo que te fizesse sentir mais Mulher.
   Ter vertigens não se trata apenas de ter medo de cair por ver o mundo rodar de acordo com as tendências mimadas do tempo, mas sim da maneira singular com que me fazes pairar sobre o mundo, baloiçando no trapézio da vida.
   E, em toda esta maratona de epifanias , pareces sempre eterna nas lembranças mas nunca no presente. Tens tanto fogo em ti que incendeias a autenticidade do teu mundo com uma inconsciente apologia à cobardia, em jeito de um resguardo necessitado num mundo ilusório de coisas alugadas porque, na verdade, nem tu te dás ao privilégio de te possuíres nessa tua independência irreverente de constantes começos e fins inevitáveis.
    Quero que me permitas largar o trapézio sem temor e, quando o fizeres, que me deixes cair em ti, na imortalidade do teu espírito e beber da tua vida ornamentada de gostos requintados. Hei-de viver e morrer em ti.
    Aí seremos gatos. A geração das sete vidas.

Matilde Alves