sábado, 13 de agosto de 2016

Declaração Muda.

"listen to the way life slowly walks out of her body. If there is any kind of music to be appreciated, then it is there, between the beats of her heart and the quiet exhale her breath..." R.M.Drake


   É uma declaração muda, por todas as vezes que to quis dizer, não o fiz ou não o podia, e por todas as vezes que to disse e o fiz de forma errada. Por tudo isto, me instalo na orla mais obscura do teu coração cujos traços e afetos têm a capacidade estrondosa de te fazer tempestade num mar de ternura e palavras.
   Se a vida me obrigou, por vezes, a ser flexível, neste aspecto, falhou redondamente contigo. Serás sempre a minha eterna e primária meia-noite que assinala o fim e o início. O curioso desta inflexibilidade contigo é causar precisamente o oposto, permitindo-me conhecer o lado mais persistente, mais inconformado e revolucionário que tenho. E, permite-me também, conhecer a diferença entre gostar dos outros e gostar da maneira como os outros nos fazem sentir. Gostar de mim pelos outros é apenas um jogo de egos camuflados que, pelos vistos, jogo constantemente e dá-me gozo fazê-lo. E contigo? Sou-te fiel, estando exposta e vulnerável ao teu sábio julgamento. Não preciso dos teus olhos, bastam-me os meus. Então resta-me gostar de ti, e gosto muito.
   Não existe nada a perdoar, as coisas são como são e os arrependimentos apenas nos permitem conhecer novas e estimulantes formas de dor. Mas há, no fundo, uma espera insensata que o outro tenha encontrado algum tipo de desespero na nossa ausência. Mostra-se contraditório...a maneira como a distância nos permite encontrar algum tipo de felicidade justificada. E por mais que inveje e abomine a maneira como és feliz sem mim, agradeço por o teres feito.

Matilde Moura

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Courage mon brave.


Para ler, ouvir e sentir...


O bom de uma dor excruciante é que deixas de te importar. Dias banais e horas aflitivas que parecem infindáveis e abraçam as más notícias rotineiras que nos consomem. Hoje é mais um dia…Acordo a teu lado, massacrado pelo sofá bafiento e ressonante. Percorro o corredor lívido e lastimoso para fazer, mais uma vez, da máquina do café o espelho da manhã. Ando a brincar às escondidas com a esperança. Esta parece somente salvaguardada para quem tiver a destreza de a encontrar. Já somos poucos.
Mas, as rotinas nunca farão de ti menos bonita. A cor contrastante das rosáceas das tuas bochechas irão sempre encher o quarto de vida em combate do branco puro, eterno e morto do hospital.

Dizem que só somos verdadeiramente livres no nosso pensamento. Um dia prometeste-me que irias ser livre e hoje conto-te o dia em que foste capaz de o fazer. A maneira como chorei o meu coração fora contigo nos meus braços. Como tirei a camisola , rasgando-a em fracos pedaços de tecido e os atei aos teus pulsos escarlate para te estancar o sangue. Como tentei que vomitasses os comprimidos e o álcool enquanto gritos cortavam o ar do que era nosso. Depois eles chegaram e arrancaram-te dos meus braços. Homens brancos manchados pelo teu sangue.
Pergunto-me que liberdade dissimulada é essa de viver presa na tua própria cabeça, que deixa que o silêncio seja a única coisa a que tenho direito. Não me chega...Porque és tu, sempre foste tu, desde a génesis do universo ao buraco fosco e terminal ao qual indiscutivelmente todos estamos destinados.
Destino..Amargo Destino .
Ainda me importo. Enquanto existires a dor nunca será suficiente para desistir. E, enquanto me importar, sei que estou a cumprir o meu papel: fazer com que amar-te seja a coisa mais importante da minha vida.


Coragem minha brava.

Matilde Moura.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Milénio

    As pessoas gostam de lamuriar-se acerca do dia em que descobrem que não foram feitas umas para as outras. Acerca dos porquês das dessemelhanças físicas, psicológicas e dos astros que não permitem que os corpos se encaixem. Das dessemelhanças que não permitem fundir as almas em algo maior, levando-as à trivial renúncia de uma inexpressividade enfadonha.
    É, igualmente doloroso, o dia em que percebi que fomos feitas uma para a outra. O dia em que percebi que somos divididas por um horizonte. Onde não há terra. O sítio inóspito onde te afundas ou voas. Nós, extraordinariamente, conseguimos a especial proeza de adotar as duas opções. Voar-mos uma da outra e afundarmos-nos em nós mesmas.
    Até que ponto preciso de outro eu? Os seres humanos não existem para serem uns dos outros. Existem para se complementarem. E, incapaz de o fazer, entrego-me assim ao nosso destino fatídico e inevitável de flutuar na eterna procura de um equilíbrio surreal por sermos genuinamente idênticas.
   Vejo em ti, a única oportunidade de gostar de mim. Oportunidade essa arruinada por todas as opções modeladas de um rumo que, embora enfeitado por uma angústia deplorável, é mais seguro.
   Como reflexos, se alguma vez te questionares, nunca nos iremos amar. É impossível amar-me a mim mesma... E, se me perder, nunca te irei encontrar.  

Matilde Moura 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

'Os Gatos não têm vertigens'

   Tudo em ti é vertiginoso. A memória soberana do teu ser parece persistir a mesma. Lembro-me de ti , quando acordava no suor dos nossos lençóis e estavas à janela. Fumavas o habitual cigarro matinal absorvendo os raios de sol que incidiam na tua pele reluzente, mostrando sem pudor às vizinhas indiscretas a tua imaculada pele nua de seios perfeitos e ancas salientes.
   Apagavas o cigarro, vestias as calças e penteiavas desajeitadamente o cabelo desgrenhado enquanto passavas o batom pelos lábios. E assim, levando contigo o sol no bolso, saías porta fora sem aviso prévio de retorno, permanecendo eu ali, no vazio daquele lugar, acompanhada das tuas beatas escarlate , à espera que voltasses numa procura insensata de algo que te fizesse sentir mais Mulher.
   Ter vertigens não se trata apenas de ter medo de cair por ver o mundo rodar de acordo com as tendências mimadas do tempo, mas sim da maneira singular com que me fazes pairar sobre o mundo, baloiçando no trapézio da vida.
   E, em toda esta maratona de epifanias , pareces sempre eterna nas lembranças mas nunca no presente. Tens tanto fogo em ti que incendeias a autenticidade do teu mundo com uma inconsciente apologia à cobardia, em jeito de um resguardo necessitado num mundo ilusório de coisas alugadas porque, na verdade, nem tu te dás ao privilégio de te possuíres nessa tua independência irreverente de constantes começos e fins inevitáveis.
    Quero que me permitas largar o trapézio sem temor e, quando o fizeres, que me deixes cair em ti, na imortalidade do teu espírito e beber da tua vida ornamentada de gostos requintados. Hei-de viver e morrer em ti.
    Aí seremos gatos. A geração das sete vidas.

Matilde Alves

domingo, 1 de dezembro de 2013

Capitão III

"You keep me safe. I will keep you wild"

   Sei que o Ponto Final odeia a Reticências. Talvez pela maneira obnubilada e abnóxia de que é vítima do futuro que, dissimulado , se adorna diplomaticamente de expectativas petulantes que mais fedem a verdades enegrecidas...
   Tentei abstrair-me da demência causada pela cabeça onerosa que, lugubremente, se deixou levar pela abrupta e pérfida anestesia , fazendo-me dialogar em silvos com os ouvidos à minutos...ou horas...ou dias...
   Estava pasmada pela minha capacidade de condescendência ao meu corpo hirto que se mantinha insensível ao soalho gélido do quarto como consequência dos ansiolíticos, que me nutriam de devaneios, estrelas e luzes que palpitavam em sintonia com o motor enclausurado pela caixa torácica.
   Levantei-me num esgar e arrastei-me até à cómoda onde me olhei ao espelho e vi o teu reflexo. Efémera miragem de um vulto cheio de lacunas oriundas dos meus caprichos danosos, que se pavoneavam de irracionalidade. Fraca, desmanchei-me em lágrimas e gritos pela nossa maneira funesta de atingir a simultaneidade. Somos exclusivos às necessidades um do outro. Meros derrotados pela crise paradoxal do meio termo.
   (Odeio-te por me amares tanto. Odeio-te por me fazeres amar-te tanto...)
   Num ato impulsivo , esmurrei-me com afinco contra as paredes, à espera que saísses da gaiola num espectáculo de gestos decompostos, onde lentamente, me comecei a dissipar na queda de sons e espectros que se instalava fazendo o mar te erguer no palco do ( meu ) mundo.
   E, entre delírios, matei o Capitão...   

Matilde Alves

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Capitão II


Para ouvir enquanto se lê...

   Lentamente, no escuro, o silêncio ensurdecedor foi dando lugar às memórias que, embora fragmentadas, iam embalando o conforto utópico.
   Já começava a delirar... a pressão sufocava-me e os pulmões, em espasmos e engasgues, tentavam puxar o resto ínfimo de oxigénio à espera que o arrependimento não me deixasse explodir com a vida. E, prestes a ceder ao meu fim, um soco no peito fez-me vir ao de cima dando uma inspiração prodigiosa, nada digna de ser ouvida. Rasgou o ar impertinente com o seu carácter gélido, carregado de dor de um âmago metafóricamente morto.
   E, desejei a cegueira quando a consciência se fez lúcida e me deu o impacto do contraste da minha pele excessivamente branca com a àgua tépida tingida de líquido escarlate que escorria dos meus pulsos.
   Encostei-me na banheira, fracassada pelo sucedido. Porque no fundo eu sabia. Sempre soube.
   - Não te vou deixar ir - disse-me.
  - Não percebes? Eu não preciso de ser salva. Vou magoar-te. Vou magoar-te tanto que vais desejar nunca ter existido.
   - Mas querida...eu não existo. Sou apenas um reflexo de alma. Sou tudo o que há de virtuoso em ti.
   Deu-me um beijo na testa e eu inspirei toda a sua vida, reconfortada ao som melódico do pulsar daquele coração familiar que há muito que batia por dois.
   Filtraste os meus horrores e fechei os olhos para sentir intensamente na minha pele molhada a lufada de ar frio que se fazia sentir naquele Dezembro. Mas...que dimensão pode assumir o frio quando se tem uma alma fogosa?
   Abri os olhos. Capitão? Vazio. Puro e simples vazio.

Matilde Alves.

domingo, 28 de abril de 2013

Capitão

   E lá estava eu. No portão da escola a ser nada e a ser ninguém quando fui levada de alma calada pelo Capitão. E caminhei, sem questionar, e, a cada passo que dava, rejuvenescia. 
   Ele enfeitava o caminho a meu gosto, como se cair no familiar funcionasse como compensação. Estava tão reconhecível... os traços do seu rosto estavam milimetricamente bem posicionados e o seu olhar voltara a ser genuíno. Sei que o era porque olhou para mim como se eu merecesse o título de senhora do universo mesmo usando as minhas All star gastas, as minhas sobrancelhas desalinhadas e como se todo o meu tamanho tivesse origem no meu coração e não na minha altura.
   Depois lembrei-me de uma das coisas mais importantes da minha vida. As luzes apagaram-se e o tempo caiu no reverso. E lá estava eu. No portão da escola a ser nada e a ser ninguém.   
   Desta vez o Capitão não me viera buscar. Viera tentar ser dono do meu destino. Não deixei, e cuspi-lhe na cara tudo o que a garganta oprimira. Cuspi o fel do desespero de desistir e da pressão dos anos a rasgarem-me a pele. 
   Olhou para mim e compreendeu. Olhou para mim como se nunca fosse deixar de me ir buscar. Olhou para mim e eu acordei.

Matilde Alves