Para ouvir enquanto se lê...
Lentamente, no escuro, o silêncio ensurdecedor foi dando lugar às memórias que, embora fragmentadas, iam embalando o conforto utópico.
Já começava a delirar... a pressão sufocava-me e os pulmões, em espasmos e engasgues, tentavam puxar o resto ínfimo de oxigénio à espera que o arrependimento não me deixasse explodir com a vida. E, prestes a ceder ao meu fim, um soco no peito fez-me vir ao de cima dando uma inspiração prodigiosa, nada digna de ser ouvida. Rasgou o ar impertinente com o seu carácter gélido, carregado de dor de um âmago metafóricamente morto.
E, desejei a cegueira quando a consciência se fez lúcida e me deu o impacto do contraste da minha pele excessivamente branca com a àgua tépida tingida de líquido escarlate que escorria dos meus pulsos.
Encostei-me na banheira, fracassada pelo sucedido. Porque no fundo eu sabia. Sempre soube.
- Não te vou deixar ir - disse-me.
- Não percebes? Eu não preciso de ser salva. Vou magoar-te. Vou magoar-te tanto que vais desejar nunca ter existido.
- Mas querida...eu não existo. Sou apenas um reflexo de alma. Sou tudo o que há de virtuoso em ti.
Deu-me um beijo na testa e eu inspirei toda a sua vida, reconfortada ao som melódico do pulsar daquele coração familiar que há muito que batia por dois.
Filtraste os meus horrores e fechei os olhos para sentir intensamente na minha pele molhada a lufada de ar frio que se fazia sentir naquele Dezembro. Mas...que dimensão pode assumir o frio quando se tem uma alma fogosa?
Abri os olhos. Capitão? Vazio. Puro e simples vazio.
Matilde Alves.